Em 11 de fevereiro de 2025, no balanço do quarto trimestre, o CEO da Coca-Cola, James Quincey, disse a analistas que a empresa via “evidência anedótica” do impacto dos medicamentos GLP-1 no consumo de comida e bebida, mas que isso “não era um fator agregado relevante” para o setor. Quinze meses depois, em 28 de julho de 2026, a mesma empresa divulgou o resultado do segundo trimestre com a linha Coca-Cola Zero Sugar crescendo 16% em volume, alta puxada por todas as regiões geográficas, e revisou a projeção do ano inteiro para cima.
A Coca-Cola não foi a única a se mexer. Em 23 de julho de 2026, a Ambev anunciou a Spaten Pro, primeira cerveja com proteína do seu portfólio: 10 gramas de proteína e menos de 100 calorias por lata, zero álcool, desenvolvida ao longo de cinco anos num centro de inovação da empresa com a UFRJ. No mesmo trimestre, a linha de “escolhas equilibradas” (menos caloria, menos carboidrato ou sem álcool) cresceu na casa dos 60% no Brasil, e cervejas zero álcool como Corona Cero, Budweiser Zero e Skol Zero Zero avançaram cerca de 30%.
A Heineken também mexeu a régua, embora tenha começado antes da onda de GLP-1 virar manchete. A linha 0.0 já está em 117 países, com salto de mais de 50% em volume acumulado entre 2020 e 2024, e neste ano a empresa ampliou o teste da Heineken 0.0 Ultimate, a primeira versão da marca com zero álcool, zero caloria e zero açúcar ao mesmo tempo, para mais estados americanos.
Por que isso interessa a quem decide onde apostar com base em sinal fraco, sem prova consolidada de retorno: as três empresas fizeram a mesma leitura de um dado ainda incerto, só que em velocidades diferentes. A Coca-Cola mostra o caminho completo, de “não é significativo” para “linha que mais cresce”, em um ano e meio.
O que os dados de fora mostram sobre o tamanho do efeito
Um estudo da Universidade Cornell, publicado em 18 de dezembro de 2025 na Journal of Marketing Research, cruzou dados de um painel de cerca de 150 mil domicílios americanos da consultoria Numerator com pesquisas sobre uso de GLP-1. O achado central: famílias reduzem o gasto com mercado em 5,3%, em média, nos seis meses seguintes ao início do medicamento, e mais de 8% entre famílias de renda mais alta. As quedas maiores aparecem em categorias densas em calorias, como salgadinhos (queda de cerca de 10%) e doces, enquanto bebidas açucaradas também entram em contração. Só iogurte, fruta fresca, barra de proteína e snacks de carne cresceram.
Como cada empresa está apostando
Nenhuma das três largou mão do portfólio tradicional. A Heineken já tratava moderação como tendência antes da explosão dos GLP-1, instalando torneiras da linha 0.0 em bares europeus num ritmo de cerca de 14 por dia desde 2025. A Coca-Cola concentrou a aposta numa linha que já existia, a Zero Sugar. A Ambev foi mais ousada tecnicamente: a cerveja com proteína não existia em nenhuma operação global da AB InBev antes da Spaten Pro.
O tamanho do movimento, em números
– Coca-Cola Zero Sugar cresceu 16% em volume no segundo trimestre de 2026, em todas as regiões.
– A linha de escolhas equilibradas da Ambev cresceu na casa dos 60% no Brasil no mesmo trimestre.
– A Heineken 0.0 acumulou alta de mais de 50% em volume global entre 2020 e 2024.
“Continuamos vendo evidência anedótica do impacto dos GLP-1 no consumo de comida e bebida, mas até agora nossa leitura é que não é um fator agregado relevante para o setor”, disse James Quincey, CEO da Coca-Cola, em fevereiro de 2025, durante teleconferência de resultados.
LIMITE DA EVIDÊNCIA
o estudo de Cornell usa dados de domicílios americanos, sem garantia de que o mesmo padrão se repita no Brasil, onde o acesso e o custo dos GLP-1 são diferentes. O percentual exato de queda em bebidas açucaradas varia entre estudos, sem número único consolidado. Os dados de Coca-Cola, Ambev e Heineken são divulgação das próprias empresas, e nenhuma atribui o crescimento das linhas zero só ao efeito GLP-1: hábito, marketing e distribuição também entram na conta.
NOSSA LEITURA
Achamos que o mais interessante não é se o GLP-1 é a causa exata de cada ponto percentual de crescimento, isso nenhuma empresa prova sozinha, é a velocidade com que a leitura mudou de “sinal fraco, ignorar” para “aposta central de portfólio” dentro da mesma empresa. Nossa aposta é que esse giro rápido vai se repetir em outras indústrias de consumo à medida que o uso de GLP-1 cresce fora dos Estados Unidos. Vale observar se empresas brasileiras de bebida e alimento vão esperar um dado nacional consolidado ou apostar cedo, como fez a Ambev.
IMPLICAÇÃO PRO GESTOR
Se sua categoria depende de consumo calórico ou açucarado, o sinal já apareceu nos resultados de quem tem escala global pra testar primeiro. A pergunta não é mais se vale reagir, é se você vai esperar um estudo nacional fechar a conta, ou testar uma aposta pequena agora, como Coca-Cola, Ambev e Heineken.
O sinal ainda é incerto, mas as apostas já saíram do slide de tendência e entraram na prateleira. Se decidir cedo com dado incompleto é o que te move de verdade, descubra fazendo o Teste de Arquétipo, e receba esse tipo de leitura cruzada com seu arquétipo toda semana assinando o Boletim.
