A Boston Consulting Group divulgou em 3 de junho de 2026 a quarta edição do seu Global AI at Work Survey, intitulada “AI at Work: Strategy Matters More Than Tools”. A pesquisa ouviu 11.749 profissionais em 14 países, entre líderes, gestores e colaboradores de linha de frente, em setores que vão de serviços financeiros a saúde. O achado que travou a conversa entre executivos de RH e de tecnologia: 47% desses profissionais dizem hoje passar mais tempo administrando e orientando a IA do que executando o próprio trabalho.

O dado vem acompanhado de outro, mais específico para quem lidera. Segundo Vinciane Beauchene, sócia da BCG e uma das autoras do relatório, à revista CIO, 65% dos gestores e líderes entrevistados acreditam que agentes de IA vão assumir pelo menos metade do próprio trabalho nos próximos três anos. Ao mesmo tempo, o uso diário de IA entre colaboradores de linha de frente saltou para 74%, 23 pontos percentuais a mais que no ano anterior, e a proporção de agentes já integrados a fluxos de trabalho mais que dobrou, de 13% para 30%.

Para quem sustenta sistemas maduros e equipes em escala, esse tipo de tarefa não substitui nada: ela se empilha em cima do resto da rotina. Se quase metade dos profissionais já gasta mais tempo gerenciando ferramenta do que gerenciando gente, produto ou processo, o gargalo que a IA prometia eliminar pode estar se formando de novo, só que agora dentro da própria liderança.

A pesquisa da BCG não é o único dado sobre isso neste ano. Em julho, o QuintoAndar publicou um caso que mostra o outro lado da mesma moeda: o que acontece quando uma empresa decide, de propósito, não deixar esse tempo evaporar.

 O que a pesquisa da BCG realmente mostrou

David Martin, líder global da prática de pessoas e organização da BCG e autor principal do relatório, disse à CIO que o número de profissionais sem orientação sobre o que fazer com o tempo poupado pela IA é alto, mas previsível: “as empresas se moveram rápido para colocar ferramentas nas mãos das pessoas, mas muitas ainda não redesenharam o trabalho ao redor delas”. Para ele, isso transforma a adoção de IA num desafio de gestão, não apenas de tecnologia.

  • 42% dos colaboradores de linha de frente que usam IA regularmente afirmam economizar pelo menos um dia inteiro de trabalho por semana.
  • 66% recebem pouca ou nenhuma orientação sobre o que fazer com esse tempo, e mais da metade não o redireciona para atividades estratégicas, segundo a BCG.
  • Empresas com estratégia clara de IA têm 25 pontos percentuais a mais de chance de reportar impacto mensurável no negócio; empresas que só compraram ferramentas melhores, sem estratégia, ganham cerca de 5 pontos percentuais.

O gargalo que o QuintoAndar decidiu remover antes que travasse tudo

O QuintoAndar redesenhou o ciclo de avaliação de desempenho de mais de 3 mil colaboradores usando um agente de IA baseado no Gemini, que reúne e organiza informações antes espalhadas entre plataformas diferentes, como avaliações de pares e registros de reuniões entre líder e liderado. Segundo a CHRO Deborah Gouveia Abi-Saber, à Cajuína, em 29 de julho de 2026, o novo processo economizou 66 horas de trabalho das lideranças (hoje, mais de 600 colaboradores do QuintoAndar lideram pelo menos uma pessoa). Um chatbot interno, treinado com a documentação do ciclo, registrou 2,7 mil acessos e respondeu 4,7 mil perguntas, cortando em 30% os chamados ao suporte. Detectores baseados em regras, não um modelo generativo, sinalizaram inconsistências na calibração, levando a ajustes em 9,2% das avaliações antes mesmo das reuniões formais.

“Não adiantava nada se eles virassem um gargalo. É preciso identificar e remover os gargalos: se a IA amplifica tudo, quem estiver no gargalo vai sofrer muito mais agora.”
Deborah Gouveia Abi-Saber, CHRO do QuintoAndar, em entrevista à Cajuína.

LIMITE DA EVIDÊNCIA

Os números da BCG vêm de autorrelato, não de medição direta de uso do tempo. E o caso do QuintoAndar é de uma única empresa, com um agente sob medida para um processo específico. Nenhum dos dois prova que redesenhar o processo elimina o gargalo em qualquer contexto, mas os dois apontam na mesma direção.

NOSSA LEITURA

Achamos que o dado mais importante aqui não é o 47%, é o 66%. Quase sete em cada dez profissionais que economizam tempo com IA não recebem orientação sobre o que fazer com ele, e a maioria não redireciona esse tempo para nada estratégico. Isso sugere que boa parte das empresas trata “dar acesso à IA” como se fosse a mesma coisa que “redesenhar o trabalho”, quando são etapas diferentes, e só a segunda evita que o tempo poupado vire mais tarefa em cima de quem lidera. Nossa aposta é que, nos próximos meses, a diferença entre empresas que capturam valor real da IA e as que só acumulam ferramentas vai estar nesse redesenho, não na quantidade de agentes contratados. Vale observar se a sua empresa mede isso, ou só mede adoção.

IMPLICAÇÃO PRO GESTOR

Se você lidera um time ou mantém um sistema em escala, pergunte a si mesmo esta semana: o tempo que a IA devolveu foi redirecionado para alguma decisão ou relação que só você pode fazer, ou virou mais uma fila para supervisionar? Segundo a BCG, a resposta mais comum é a segunda. Antes de aprovar mais uma ferramenta de IA para o time, vale desenhar, com quem vai usar, para onde esse tempo deveria ir, e cobrar isso como métrica, não como efeito colateral.

Se esse gargalo, o de virar a pessoa que mais trava o próprio sistema, soa familiar, vale descobrir se você se reconhece no perfil Maintainer no teste de arquétipo e assine o Boletim para acompanhar esse tipo de decisão de marketing analisada toda semana.